O reality de Viih Tube expôs mais do que um erro de comunicação. Revelou como o capitalismo digital transforma trabalhadores em personagens, desigualdades em entretenimento e a pobreza em mercadoria de alto valor para a economia da atenção.

O reality show criado por Viih Tube e Eliezer não gerou indignação apenas porque funcionários precisavam procurar moedas dentro de um vaso sanitário. O desconforto coletivo surgiu porque milhões de brasileiros reconheceram, mesmo intuitivamente, uma velha estrutura social sendo atualizada pelas plataformas digitais. O banheiro foi apenas o cenário. O verdadeiro espetáculo era a relação de poder transformada em conteúdo.

Há oito anos pesquiso pobreza, desigualdade e comunicação popular, e uma conclusão permanece inalterada: a pobreza não é uma condição individual, tampouco resultado exclusivo da falta de renda. Ela constitui um sistema de organização da sociedade. Essa compreensão, desenvolvida em meus estudos e aprofundada em A Rota Invisível da Pobreza no Brasil, desloca o debate da responsabilidade individual para as estruturas históricas que produzem exclusão, dependência e desigualdade.

O episódio envolvendo os funcionários da família evidencia justamente essa lógica estrutural. Não se trata apenas de pessoas disputando prêmios ou aceitando participar de provas. Trata-se de compreender que toda relação de trabalho ocorre dentro de uma assimetria de poder. Quando essa relação passa a produzir entretenimento monetizado, o trabalho deixa de ser apenas trabalho. Passa a integrar a indústria da atenção.

Karl Marx já advertia que o capitalismo transforma força de trabalho em mercadoria. Pierre Bourdieu ampliou essa compreensão ao demonstrar que também existe um capital simbólico, responsável por produzir prestígio, reconhecimento e autoridade social. No ambiente das redes digitais, quem concentra audiência acumula simultaneamente capital econômico, simbólico e comunicacional, ampliando ainda mais as distâncias entre quem produz conteúdo e quem passa a integrar esse conteúdo.
Michel Foucault mostrou que as sociedades contemporâneas deixaram de organizar o poder apenas pela coerção física para disciplinar indivíduos pela vigilância permanente. Hoje, as redes sociais aprofundam essa lógica. Câmeras, curtidas, comentários e algoritmos transformam o cotidiano em uma arena contínua de exposição pública. O trabalhador deixa de exercer apenas sua função profissional para desempenhar também um papel diante da audiência.
Guy Debord chamou esse processo de sociedade do espetáculo. O que antes permanecia restrito à esfera privada passa a ser convertido em mercadoria audiovisual. A intimidade, o casamento, a maternidade, o sofrimento, a infância e, agora, as próprias relações de trabalho tornam-se produtos capazes de gerar visualizações, contratos publicitários e monetização. O espetáculo deixa de representar a realidade; passa a reorganizá-la.

Esse fenômeno torna-se ainda mais preocupante quando analisado sob a perspectiva histórica brasileira. Nossa formação social foi construída sobre profundas hierarquias entre quem serve e quem é servido. A escravidão deixou marcas institucionais e culturais que atravessam gerações. Embora os vínculos jurídicos tenham mudado, determinados imaginários sociais permanecem naturalizando relações profundamente desiguais de autoridade e submissão.
A tese de doutorado de Sarah Fontenelle Santos oferece uma importante contribuição para compreender esse cenário. Ao investigar processos de comunicação popular e insurgente na comunidade Boa Esperança, a autora demonstra que populações historicamente vulnerabilizadas produzem comunicação para afirmar memória, território, identidade e dignidade, contrapondo-se às narrativas que as transformam em objetos de intervenção ou espetáculo. Comunicação, nesse sentido, torna-se instrumento de emancipação coletiva e não de exploração simbólica.
É justamente nesse ponto que reside o contraste mais significativo. Enquanto comunidades populares lutam para conquistar voz própria e construir processos comunicacionais horizontais, parte da economia dos influenciadores converte trabalhadores em personagens e relações laborais em entretenimento. A lógica algorítmica não elimina desigualdades; frequentemente as reorganiza em formatos altamente rentáveis.
Zygmunt Bauman observava que vivemos uma modernidade marcada pelo consumo permanente de experiências. No capitalismo digital, não consumimos apenas produtos. Consumimos vidas, rotinas, emoções, conflitos e bastidores. A audiência tornou-se um mercado no qual praticamente tudo pode ser transformado em conteúdo. A desigualdade, nesse ambiente, também passa a possuir valor econômico.
Por essa razão, reduzir esse episódio a uma simples polêmica envolvendo influenciadores significa ignorar sua dimensão sociológica. O caso revela como o capitalismo contemporâneo encontrou novas formas de mercantilizar relações historicamente assimétricas. Não basta administrar a pobreza. Ela precisa produzir engajamento. Não basta haver trabalho. Ele precisa gerar audiência. Não basta existir desigualdade. Ela precisa circular nas plataformas.
Talvez a pergunta mais importante não seja se determinado reality foi ofensivo ou inadequado. A verdadeira questão é outra: que sociedade estamos construindo quando relações marcadas por profundas diferenças econômicas deixam de provocar reflexão e passam a ser consumidas como entretenimento? Quando a pobreza se transforma em roteiro e o trabalho em espetáculo, o problema já não pertence apenas às redes sociais. Ele revela, sobretudo, os limites éticos de uma sociedade que aprendeu a monetizar até mesmo suas desigualdades.



















































