Projeto gratuito realizado todas as quintas-feiras na Lagoa do Mocambinho transforma a cultura hip-hop em ferramenta permanente de formação para crianças e adolescentes em Teresina
Enquanto o Brasil assiste ao crescimento acelerado das apostas esportivas, dos jogos on-line e do aumento do tempo de exposição de crianças e adolescentes às telas, um movimento silencioso resiste todas as semanas na zona Norte de Teresina. Todas as quintas-feiras, na Lagoa do Mocambinho, um dos principais parques públicos da capital piauiense, dezenas de crianças e adolescentes ocupam o espaço para aprender breaking, capoeira, disciplina, convivência e cidadania.

Há mais de dez anos, o produtor cultural e educador social Jardel de Oliveira Ferreira mantém, de forma contínua, oficinas gratuitas voltadas à formação artística da infância e da juventude. O trabalho começou muito antes de a sociedade brasileira discutir os impactos das plataformas de apostas digitais, dos jogos eletrônicos de recompensa e da crescente substituição dos espaços públicos por ambientes virtuais.
Enquanto parte da juventude passou a disputar atenção entre aplicativos, influenciadores e plataformas de jogos, o projeto coordenado por Jardel permaneceu oferecendo uma alternativa concreta: transformar a praça em sala de aula, o corpo em instrumento de expressão e a cultura hip-hop em política de cuidado.
Mais do que ensinar movimentos, o projeto forma pessoas.

A cada encontro semanal, crianças e adolescentes desenvolvem coordenação motora, equilíbrio, disciplina, criatividade, trabalho em equipe e respeito às diferenças. Ao mesmo tempo, aprendem sobre pertencimento, identidade cultural e ocupação positiva do espaço público.
Em uma cidade onde a oferta permanente de atividades culturais gratuitas ainda é limitada em muitos bairros periféricos, iniciativas como essa acabam assumindo um papel que frequentemente extrapola a dimensão artística. São ações que dialogam diretamente com prevenção à violência, fortalecimento comunitário, permanência escolar e promoção da saúde física e mental.


O trabalho desenvolvido por Jardel também chama atenção pela continuidade. Diferentemente de projetos criados exclusivamente para atender editais públicos, sua atuação permanece ativa durante todo o ano, independentemente da existência de financiamento. A oficina acontece regularmente, sustentada pelo compromisso comunitário construído ao longo de mais de uma década.
Essa permanência representa um diferencial importante dentro das políticas culturais. Em vez de ações pontuais, o projeto consolidou um processo permanente de formação de crianças e adolescentes, fortalecendo vínculos familiares, incentivando hábitos saudáveis e ampliando o acesso às culturas urbanas na zona Norte de Teresina.
Ao longo dessa trajetória, Jardel organizou oficinas, encontros comunitários, apresentações culturais, atividades em escolas públicas e eventos voltados à democratização do acesso ao breaking e às manifestações do hip-hop. Parte dessas iniciativas foi construída por meio de mobilização voluntária, arrecadações comunitárias e apoio de moradores, demonstrando a capacidade de organização existente nos territórios periféricos.
O reconhecimento desse trabalho ultrapassou os limites do bairro. Em 2023, Jardel recebeu Menção Honrosa concedida pelo Instituto Comunicar Comunidade, organização que atua na valorização de iniciativas de impacto social e comunitário. A homenagem reconheceu sua contribuição para a promoção da cultura, da educação popular e da formação de crianças e adolescentes por meio das artes urbanas.

Em um período em que o debate nacional se concentra nos efeitos das apostas digitais sobre a juventude, experiências como a da Lagoa do Mocambinho demonstram que existem caminhos possíveis para disputar o tempo, a atenção e os sonhos das novas gerações.




Não por meio da proibição ou do discurso moralizante, mas oferecendo presença, pertencimento e oportunidades reais.
Talvez essa seja uma das maiores lições produzidas semanalmente naquela praça: antes de perguntar por que tantos jovens procuram refúgio nas telas, é preciso perguntar quantos espaços públicos continuam oferecendo alternativas concretas de cultura, esporte e convivência.
Na Lagoa do Mocambinho, essa resposta aparece todas as quintas-feiras.
Ali, enquanto a cidade segue seu ritmo, um grupo de crianças troca o celular pelo movimento, a solidão pelo coletivo e o algoritmo pela arte.
E talvez seja justamente esse o investimento público e social que mais produz resultados a longo prazo: aquele que começa com uma oficina de dança, mas termina formando cidadãos.




















































