Pesquisa que analisou uma década de dados nos 96 distritos da capital mostra que, embora as internações ocorram em praticamente toda a cidade, o risco de morte permanece concentrado em regiões com piores indicadores socioeconômicos. Especialistas apontam que acesso à saúde, condições de moradia e organização do território ajudam a explicar esse cenário.
Por Leonardo Mascarenhas
Especial para o De Olho São Paulo

Uma criança que desenvolve pneumonia em São Paulo pode encontrar hospitais, unidades básicas de saúde e serviços especializados em diferentes regiões da cidade. No entanto, as chances de sobreviver à doença não são iguais para todas. Um estudo publicado na Revista Paulista de Pediatria identificou que, embora as internações estejam distribuídas por praticamente todos os distritos da capital, as mortes se concentram principalmente nas regiões mais pobres e socialmente vulneráveis. A pesquisa, realizada por pesquisadores do Instituto Pensi, analisou todos os 96 distritos administrativos do município entre 2010 e 2020 e concluiu que fatores ligados ao território onde a criança vive exercem influência importante sobre o desfecho da doença. O resultado reforça uma discussão recorrente na saúde pública: além das características clínicas, aspectos como renda, moradia, infraestrutura urbana e acesso aos serviços de saúde podem modificar significativamente o risco de morte por doenças respiratórias.

Durante o período analisado, foram registrados 156.112 internações e 1.486 mortes por pneumonia entre crianças e adolescentes de até 19 anos, segundo dados do Sistema Único de Saúde utilizados pelos pesquisadores. Em média, a cidade registrou 446 internações e 4,2 mortes por 100 mil habitantes ao ano. Embora tanto as hospitalizações quanto os óbitos tenham apresentado redução ao longo da década, essa diminuição ocorreu de maneira desigual entre os diferentes territórios da cidade.
Enquanto bairros como Morumbi e Jardim Paulista também registraram internações, as maiores concentrações de mortes foram identificadas principalmente na Zona Leste e no extremo da Zona Norte, regiões que apresentam menores indicadores socioeconômicos. Segundo o pesquisador William Cabral, coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Ciência de Dados do Instituto Pensi e um dos autores do estudo, esse padrão já havia sido observado em outras doenças, mas a pesquisa buscou compreender se o mesmo comportamento ocorria especificamente com a pneumonia.

Para identificar quais regiões apresentavam maior vulnerabilidade, os pesquisadores utilizaram técnicas de geoprocessamento associadas ao GeoSES, indicador que reúne informações sobre renda, escolaridade, pobreza, mobilidade urbana, segregação social e acesso a recursos públicos. A metodologia permitiu comparar o risco relativo de internações e de mortes levando em consideração o tamanho da população de crianças e adolescentes de cada distrito. Os resultados mostraram que os territórios com menor pontuação no índice socioeconômico apresentaram um risco de morte por pneumonia aproximadamente 75% superior ao esperado, enquanto bairros com maior concentração de moradias de padrão médio e alto registraram um risco cerca de 45% menor.

Para os autores, esses números reforçam que a distribuição das mortes não ocorre de forma aleatória e acompanha as desigualdades estruturais da cidade. Embora o estudo não permita estabelecer relações individuais de causa e efeito, ele demonstra que características do território onde a criança vive podem influenciar significativamente as oportunidades de diagnóstico, tratamento e recuperação da doença. Os pesquisadores destacam que compreender essa distribuição espacial é fundamental para orientar políticas públicas e direcionar recursos para as regiões de maior vulnerabilidade. (Fonte: Revista Paulista de Pediatria, 2026; Instituto Pensi).

Outro resultado chamou a atenção da equipe responsável pela pesquisa. Além dos indicadores socioeconômicos, a presença de vias de trânsito rápido, como rodovias e grandes corredores urbanos, também permaneceu estatisticamente associada ao maior risco de morte por pneumonia. Segundo William Cabral, essa variável foi utilizada como um indicador indireto da exposição prolongada aos poluentes atmosféricos produzidos pelo intenso fluxo de veículos ao longo da década analisada. Os pesquisadores ressaltam que a associação encontrada não permite afirmar que a poluição seja, isoladamente, responsável pelos óbitos, mas evidencia que essas características coexistem nos territórios onde a mortalidade é mais elevada.
A hipótese dialoga com pesquisas anteriores que relacionam a exposição contínua à poluição do ar ao agravamento de doenças respiratórias, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com condições clínicas pré-existentes. Para os autores, a combinação entre vulnerabilidade socioeconômica, condições ambientais desfavoráveis e dificuldades de acesso aos serviços de saúde pode contribuir para explicar por que determinados bairros concentram um número maior de mortes, mesmo quando o risco de adoecer não apresenta a mesma distribuição espacial. (Fonte: Revista Paulista de Pediatria, 2026; Organização Mundial da Saúde; Instituto Pensi).
Embora a pesquisa tenha identificado maior concentração de mortes nas regiões periféricas, o comportamento das internações apresentou um padrão diferente. Distritos com melhores indicadores sociais registraram proporcionalmente mais hospitalizações por pneumonia, resultado que, segundo os pesquisadores, pode refletir diferenças na forma como a população acessa os serviços de saúde. Para William Cabral, coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Ciência de Dados do Instituto Pensi, esse dado reforça que a simples existência de unidades de atendimento não garante igualdade no cuidado.
Segundo ele, é preciso considerar a oportunidade em que o paciente consegue chegar ao sistema de saúde e a qualidade da assistência recebida ao longo do tratamento. Em muitos casos, o atendimento precoce permite evitar o agravamento da doença e reduzir significativamente o risco de complicações. “A hospitalização acontece porque a doença ocorreu.
O pior desfecho, que é a morte, parece estar relacionado à qualidade e à oportunidade desse atendimento”, afirmou o pesquisador em entrevista à Folha de S.Paulo. A equipe também avaliou variáveis relacionadas à oferta de serviços de saúde, mas essas não apresentaram associação estatisticamente significativa com a mortalidade quando analisadas isoladamente. Os autores ressaltam, contudo, que o acesso efetivo à assistência envolve diversos fatores, como disponibilidade de transporte, tempo de deslocamento, capacidade das unidades de saúde e condições socioeconômicas das famílias. (Fontes: Revista Paulista de Pediatria, 2026; Folha de S.Paulo, 09/07/2026).
Os resultados observados na capital paulista dialogam com outras pesquisas desenvolvidas recentemente no Estado de São Paulo. Um estudo conduzido pelo Grupo de Análise de Infecções e Antimicrobianos (Gaia), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também identificou agrupamentos geográficos de maior letalidade para doenças infecciosas como pneumonia, infecção da corrente sanguínea e infecção urinária. Segundo o infectologista Carlos Kiffer, líder da pesquisa, a distribuição das mortes nem sempre acompanha o mesmo padrão das internações, indicando que adoecer e morrer são processos influenciados por fatores distintos. Para o pesquisador, aspectos relacionados à organização dos serviços de saúde, à oportunidade de atendimento e às desigualdades regionais podem desempenhar papel importante na sobrevivência dos pacientes, hipótese que ainda deverá ser aprofundada por novos estudos.
Os autores do trabalho publicado na Revista Paulista de Pediatria também destacam que as mudanças climáticas tornam esse debate ainda mais urgente. Eventos extremos, como ondas de frio e calor, tendem a afetar de maneira mais intensa crianças que vivem em moradias precárias, com pouca ventilação, alta umidade e baixa incidência de luz solar. Nesse contexto, compreender onde as mortes acontecem deixa de ser apenas um exercício estatístico e passa a ser uma ferramenta para orientar políticas públicas, priorizar investimentos e reduzir desigualdades históricas no acesso à saúde. (Fontes: Revista Paulista de Pediatria, 2026; Unifesp; Folha de S.Paulo, 09/07/2026).
A pesquisa publicada pela Revista Paulista de Pediatria não demonstra apenas onde ocorreram mais mortes por pneumonia em São Paulo. Ela revela como a distribuição da mortalidade acompanha desigualdades históricas relacionadas à renda, moradia, infraestrutura urbana e acesso aos serviços públicos. Ao analisar os 96 distritos da capital ao longo de uma década, o estudo evidencia que o território onde a criança vive pode influenciar significativamente suas chances de sobreviver a uma doença que, em muitos casos, possui tratamento disponível.
Os resultados reforçam uma discussão cada vez mais presente na literatura científica sobre os chamados determinantes sociais da saúde. A qualidade da habitação, a cobertura vacinal, a nutrição adequada, a exposição à poluição atmosférica, a proximidade dos equipamentos públicos e a oportunidade de acesso ao atendimento médico constituem fatores que, somados, ajudam a explicar por que comunidades diferentes apresentam desfechos distintos diante da mesma doença. Não se trata de substituir a importância do tratamento clínico, mas de reconhecer que as condições sociais e territoriais também fazem parte do processo de adoecimento e recuperação.
Para especialistas, compreender essa dinâmica representa um passo importante para o planejamento de políticas públicas mais eficientes. Ferramentas de geoprocessamento, indicadores socioeconômicos e sistemas de informação em saúde permitem identificar os territórios mais vulneráveis e orientar ações preventivas, campanhas de vacinação, fortalecimento da atenção primária e investimentos em infraestrutura urbana. Em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, pelo envelhecimento das cidades e pela persistência das desigualdades, integrar planejamento urbano e saúde pública tende a ser cada vez mais necessário.
Mais do que retratar um problema específico da pneumonia, o estudo convida gestores públicos, pesquisadores e sociedade a refletirem sobre uma questão mais ampla: até que ponto o lugar onde uma criança nasce continua determinando suas oportunidades de viver com saúde? Responder a essa pergunta exige olhar para além dos hospitais e reconhecer que reduzir a mortalidade infantil passa também pelo enfrentamento das desigualdades que ainda estruturam grande parte das cidades brasileiras.
Fontes: Revista Paulista de Pediatria (2026); Instituto Pensi; Folha de S.Paulo (09 jul. 2026); Grupo de Análise de Infecções e Antimicrobianos (Gaia/Unifesp); Organização Mundial da Saúde (OMS).




















































