A morte do ex-presidente do Federal Reserve não encerra apenas a trajetória de um dos economistas mais influentes do século XX. Ela simboliza o esgotamento de um modelo que acreditou que mercados livres seriam capazes de produzir estabilidade, prosperidade e equilíbrio por conta própria.
Por Leonardo Mascarenhas

A morte de Alan Greenspan, aos 100 anos, marca muito mais do que o desaparecimento de um ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Ela representa o encerramento de uma das experiências econômicas mais influentes da história recente: a crença de que mercados financeiros desregulados, aliados a bancos centrais independentes e inflação sob controle, seriam suficientes para garantir crescimento econômico sustentável.
Durante quase dezenove anos, entre 1987 e 2006, Greenspan foi considerado uma espécie de “oráculo” da economia mundial. Suas palavras alteravam bolsas de valores, influenciavam governos e determinavam fluxos internacionais de capitais. Raramente um banqueiro central concentrou tamanho poder político e econômico.
No entanto, sua trajetória precisa ser compreendida dentro de um contexto histórico muito maior.
Greenspan foi um dos principais arquitetos da consolidação do neoliberalismo financeiro, modelo que ganhou força após o colapso do sistema de Bretton Woods, em 1971, e foi impulsionado pelos governos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher na década seguinte. A lógica era simples: reduzir a intervenção estatal, ampliar a liberdade dos mercados, fortalecer o sistema financeiro e utilizar a política monetária como principal instrumento de estabilidade econômica.
Durante décadas, esse modelo pareceu funcionar.
A inflação foi controlada em grande parte das economias desenvolvidas. Os mercados financeiros expandiram-se em velocidade inédita. O comércio internacional alcançou níveis históricos. Empresas transnacionais multiplicaram investimentos e a globalização passou a ser apresentada como um caminho inevitável para o desenvolvimento.
Mas havia uma contradição silenciosa.
Enquanto a inflação permanecia relativamente baixa, o sistema financeiro tornava-se cada vez mais complexo, mais alavancado e mais concentrado. O capital produtivo cedia espaço ao capital financeiro. A economia real crescia em ritmo inferior ao crescimento dos ativos negociados nas bolsas de valores.
Foi exatamente esse fenômeno que o economista Hyman Minsky antecipou décadas antes ao afirmar que longos períodos de estabilidade tendem, paradoxalmente, a produzir comportamentos cada vez mais arriscados. Quanto maior a confiança dos mercados, maior a disposição para assumir riscos. E quanto maiores os riscos, maior a probabilidade de uma crise sistêmica.
A crise financeira de 2008 confirmou essa hipótese.
Ela demonstrou que controlar apenas a inflação não basta para garantir estabilidade econômica. Bancos quebraram, milhões de pessoas perderam suas casas, empresas fecharam e governos precisaram mobilizar trilhões de dólares para impedir o colapso do sistema financeiro internacional.
Naquele momento, uma pergunta tornou-se inevitável: se os mercados eram capazes de se autorregular, por que precisaram ser salvos pelos Estados?
A resposta revelou um dos maiores paradoxos do neoliberalismo contemporâneo.
Defende-se a redução da presença estatal durante os períodos de crescimento. Mas, quando as crises se aprofundam, é justamente o Estado quem assume o papel de socorrer bancos, garantir liquidez, preservar depósitos e evitar que o sistema financeiro entre em colapso.
Greenspan reconheceu, anos depois, que havia encontrado uma “falha” em sua própria compreensão sobre o funcionamento dos mercados.
Essa autocrítica, embora rara, simboliza o fim de uma convicção que dominou boa parte da política econômica mundial durante mais de três décadas.
Hoje, o cenário internacional é profundamente diferente.
A pandemia recolocou o Estado no centro das políticas econômicas. A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China transformou investimentos públicos em instrumentos estratégicos de desenvolvimento. A inteligência artificial exige infraestrutura bilionária financiada, muitas vezes, por políticas industriais. A transição energética demanda forte coordenação estatal. Ao mesmo tempo, conflitos geopolíticos elevam custos de produção e pressionam cadeias globais de abastecimento.
Nesse novo ambiente, bancos centrais continuam fundamentais, mas já não ocupam sozinhos o centro das decisões econômicas.
A política monetária passou a dividir espaço com políticas fiscais, industriais, tecnológicas e ambientais.
Talvez essa seja a maior transformação do século XXI.
O debate econômico deixou de perguntar apenas qual deve ser a taxa de juros. Passou a discutir qual modelo de desenvolvimento as sociedades desejam construir.
Nesse contexto, Alan Greenspan permanece como uma figura histórica incontornável. Não apenas pelos acertos que acumulou ao longo de sua gestão, mas porque sua trajetória sintetiza as virtudes e os limites de um período em que se acreditou que a eficiência dos mercados seria suficiente para organizar a economia global.
A história mostrou que mercados são extraordinários mecanismos de alocação de recursos, mas não substituem instituições sólidas, regulação eficiente nem políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades, prevenir crises e promover desenvolvimento de longo prazo.
O legado de Greenspan, portanto, não é apenas econômico.
É histórico.
Sua morte encerra simbolicamente a geração que acreditou que o mercado poderia resolver quase tudo. O mundo de hoje demonstra justamente o contrário: crescimento econômico, estabilidade financeira e justiça social dependem de um equilíbrio permanente entre Estado, mercado e sociedade.
Mais do que o fim da trajetória de um banqueiro central, assistimos ao encerramento de uma era intelectual cujas promessas continuam sendo revisadas pela própria realidade. Esse talvez seja o maior legado de Alan Greenspan: lembrar que nenhuma teoria econômica permanece imune aos testes da história.
Leonardo Mascarenhas é jornalista, pesquisador das desigualdades sociais e autor de A Rota Invisível da Pobreza no Brasil. Escreve sobre economia política, desenvolvimento, pobreza e políticas públicas.



















































