A derrota da Seleção Brasileira para a Noruega expõe um dilema que ultrapassa o futebol. Em São Paulo, onde a disputa eleitoral ganha forma, a principal pergunta não é quem perdeu ontem, mas quem continuará perdendo amanhã se insistirmos nas mesmas escolhas.
Por Leonardo Mascarenhas

A derrota do Brasil para a Noruega não aconteceu apenas dentro das quatro linhas. Ela produziu um silêncio coletivo que, para muitos brasileiros, soa familiar. Não foi apenas um resultado esportivo. Foi a sensação de que algo já estava anunciado muito antes do apito inicial. Durante dias discutimos escalação, convocação, escolhas técnicas, ausência de renovação e insistência em jogadores que já não entregavam o desempenho esperado. Depois do jogo, a indignação tomou conta das redes sociais. Especialistas revisaram decisões. Ex-jogadores apontaram erros.
O país voltou a procurar culpados. Mas talvez a pergunta mais importante não seja quem falhou em campo. Talvez seja por que continuamos acreditando que repetir estruturas produzirá resultados diferentes. Essa pergunta, curiosamente, também serve para a política paulista. Afinal, enquanto milhões lamentavam a eliminação da Seleção, outro campeonato começava silenciosamente: o das eleições de 2026. E esse campeonato, diferente da Copa, não termina em noventa minutos. Seus efeitos permanecem por anos na vida de milhões de pessoas.
São Paulo concentra quase um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro, reúne mais de quarenta milhões de habitantes e possui o maior orçamento estadual do país. Ainda assim, convive diariamente com problemas estruturais que atravessam diferentes governos. A mobilidade continua desigual entre centro e periferia. O déficit habitacional permanece elevado. O custo de vida cresce acima da renda em diversas regiões metropolitanas. A violência continua sendo uma preocupação permanente em muitas cidades. A educação enfrenta sucessivos debates sobre qualidade, financiamento e reorganização da rede pública. Enquanto isso, a política entra novamente em clima eleitoral. Novos slogans aparecem. Antigos discursos retornam. As mesmas lideranças disputam espaço. Os mesmos grupos reorganizam alianças. O futebol costuma ensinar que tradição pesa. A política demonstra que tradição também pode acomodar. Nenhum governo, independentemente do partido, deveria considerar natural permanecer imune ao questionamento público simplesmente porque venceu a eleição anterior.
A gestão do governador Tarcísio de Freitas chega ao segundo semestre de 2026 carregando indicadores positivos em algumas áreas econômicas, como atração de investimentos privados e novos projetos de infraestrutura. Ao mesmo tempo, enfrenta críticas consistentes sobre políticas públicas relacionadas à educação, privatizações, reorganização administrativa, segurança pública e participação social. Entidades representativas de professores contestaram mudanças implementadas na rede estadual. Especialistas em urbanismo discutem os efeitos sociais de concessões e projetos voltados ao transporte. Organizações de direitos humanos questionam operações policiais em diferentes territórios. Nenhum governo democrático está livre dessas críticas. Pelo contrário. Elas fazem parte da própria democracia.
O problema surge quando a administração passa a responder mais rapidamente às pesquisas de opinião do que às demandas concretas da população. No futebol, uma comissão técnica que ignora os sinais do jogo costuma ser surpreendida pelo adversário. Na política, a consequência pode aparecer apenas anos depois, quando a urna transforma insatisfação silenciosa em resultado eleitoral.
Existe outra semelhança pouco discutida entre futebol e política: ambos dependem da confiança coletiva. Uma Seleção pode reunir jogadores talentosos e ainda assim fracassar quando perde capacidade de convencer sua torcida. Um governo pode apresentar indicadores favoráveis e, mesmo assim, encontrar resistência crescente caso a população não perceba melhorias concretas em sua rotina. É justamente nesse ponto que São Paulo vive uma contradição importante. Grandes obras avançam. Novas concessões são anunciadas. Investimentos privados chegam ao estado. Entretanto, parte significativa da população continua gastando horas dentro do transporte público, convivendo com dificuldades no acesso à moradia, enfrentando filas na saúde e buscando oportunidades de trabalho que nem sempre acompanham o custo crescente da cidade. A percepção cotidiana nem sempre conversa com os números oficiais. E, em política, percepção também produz voto.
Enquanto isso, outro personagem passou a ocupar lugar central nesse debate: o mercado das apostas esportivas. A regulamentação recente consolidou um setor bilionário que cresce rapidamente no Brasil. Em dias de grandes competições internacionais, milhões de brasileiros transformam expectativa esportiva em investimento financeiro. Empresas patrocinam clubes, campeonatos, programas esportivos e influenciadores digitais. A derrota da Seleção, para parte dessas plataformas, não representa necessariamente prejuízo. O lucro está na movimentação das apostas, independentemente do vencedor. O futebol tornou-se também um ativo econômico de escala global. Essa lógica revela uma mudança importante: nem sempre quem organiza o espetáculo torce pelo mesmo resultado que o público deseja. Na política, essa reflexão também merece atenção. Nem todos os interesses presentes durante uma campanha eleitoral coincidem com aquilo que beneficia diretamente a população.
As campanhas eleitorais modernas deixaram de ser apenas disputas de ideias. Tornaram-se operações complexas de comunicação, dados, marketing, redes sociais e financiamento. Assim como técnicos estudam estatísticas para montar uma equipe competitiva, partidos analisam comportamento eleitoral, perfil demográfico e consumo digital para construir narrativas eficientes. Em muitos casos, vence quem comunica melhor, não necessariamente quem apresenta o projeto mais consistente. A derrota da Seleção mostra como a opinião pública pode mudar em poucas horas. Antes do jogo, havia confiança. Depois da eliminação, surgiram cobranças. A política também vive dessa velocidade. Governos considerados fortes podem enfrentar desgaste acelerado quando deixam de interpretar corretamente o humor social. Da mesma forma, candidaturas pouco conhecidas podem crescer rapidamente quando conseguem traduzir sentimentos que estavam represados na sociedade.
Talvez seja exatamente essa a principal lição que o futebol oferece à política paulista. Nenhuma vitória passada garante legitimidade permanente. Nenhuma camisa vence sozinha. Nenhuma máquina eleitoral substitui escuta pública. Nenhum governo deveria acreditar que marketing resolve problemas estruturais. A derrota do Brasil para a Noruega termina quando o árbitro encerra a partida.
A derrota provocada por escolhas políticas equivocadas pode permanecer durante quatro anos ou mais. Por isso, quando afirmo que a Copa acabou e as eleições começaram, não estou propondo uma comparação simplista entre esporte e política. Estou lembrando que ambos exigem responsabilidade diante das escolhas. Escalações erradas custam campeonatos. Decisões públicas custam oportunidades, desenvolvimento e qualidade de vida. O Brasil perdeu um jogo. São Paulo ainda decidirá como pretende disputar o próximo capítulo de sua própria história.
Talvez o maior erro seja acreditar que derrotas acontecem apenas no dia do jogo. Não acontecem. Elas começam quando deixamos de fazer perguntas incômodas, quando aceitamos que determinadas decisões não podem ser contestadas e quando transformamos a repetição em sinônimo de experiência. A Seleção perdeu para a Noruega porque, em algum momento, deixou de responder melhor às exigências do jogo. A política corre exatamente o mesmo risco quando deixa de responder às transformações da sociedade. São Paulo mudou. A periferia mudou. A juventude mudou. A economia mudou. A comunicação mudou. O eleitor mudou. Mas parte da política ainda fala como se estivéssemos em outra década. A eleição que se aproxima não será decidida apenas por quem aparecer mais na televisão ou reunir mais partidos. Ela será decidida por quem conseguir compreender um estado cada vez mais desigual, conectado e exigente. O voto, assim como o futebol, também premia quem consegue interpretar melhor o tempo em que vive. Quem insiste em jogar olhando apenas para o retrovisor costuma descobrir tarde demais que o adversário já estava alguns passos à frente.
Não escrevo este texto para comparar um treinador a um governador ou uma partida de futebol a uma eleição. Escrevo porque ambos revelam uma característica profundamente brasileira: a dificuldade de reconhecer que renovação não significa destruir a história, mas permitir que ela continue existindo. O Brasil continuará sendo a pátria do futebol independentemente desta derrota. São Paulo continuará sendo o maior estado da federação independentemente de quem vencer as eleições. A verdadeira questão é outra: teremos coragem de discutir o futuro antes que a próxima derrota aconteça? Ou continuaremos esperando o apito final para procurar culpados? Democracias maduras aprendem antes de perder. Times vencedores corrigem erros antes da eliminação. Governos responsáveis escutam críticas antes das urnas. Talvez seja exatamente isso que ainda nos falte.
A Copa acabou. O Brasil perdeu. As eleições começaram. A bola agora está nos pés de milhões de eleitores paulistas que, em poucos meses, decidirão muito mais do que nomes ou partidos. Decidirão prioridades, modelos de gestão, formas de desenvolvimento e o tipo de estado que desejam construir para a próxima geração. O futebol sempre nos ensinou que nenhuma camisa ganha sozinha. A política deveria aprender a mesma lição. Porque o maior risco não é perder uma partida.
O maior risco é transformar a derrota em rotina, acreditar que ela é inevitável e seguir escalando o mesmo time esperando um resultado diferente. O jogo mudou. São Paulo também mudou. A pergunta que permanece é simples, mas decisiva: quem realmente está preparado para entrar em campo? E, sobretudo, quem a sociedade continuará insistindo em deixar no banco de reservas?




















































