Enquanto o mundo transforma cultura em tecnologia, inovação e riqueza, o maior estado brasileiro continua financiando a sobrevivência, e não a autonomia, da produção cultural periférica.
Por Leonardo Mascarenhas

Durante décadas, o debate sobre cultura no Estado de São Paulo foi reduzido a uma pergunta aparentemente simples: quem receberá recursos para realizar seu próximo espetáculo? A discussão, embora importante, tornou-se insuficiente diante da velocidade com que a economia mundial passou a reorganizar a produção cultural por meio da inteligência artificial, das plataformas digitais, da propriedade intelectual, do blockchain, da realidade imersiva e dos novos modelos de negócios criativos. Enquanto países como Coreia do Sul, Japão, Índia e Estados Unidos estruturam políticas que conectam cultura, tecnologia e inovação econômica, São Paulo continua concentrando grande parte de seus investimentos em ações episódicas, incapazes de alterar estruturalmente a posição dos artistas independentes dentro da economia do conhecimento.
A consequência é silenciosa, mas devastadora: forma-se uma geração extremamente criativa, porém economicamente dependente. Não se trata de ausência de talento. Trata-se da ausência de políticas públicas capazes de transformar criatividade em patrimônio intelectual, inovação e desenvolvimento econômico. A revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Innovation and Entrepreneurship demonstra justamente que as indústrias culturais passaram a ser impulsionadas pela convergência entre tecnologia e criatividade, redefinindo completamente a produção, distribuição e monetização dos bens culturais.
A periferia paulista talvez seja um dos maiores paradoxos culturais do Brasil. É nela que surgem novos escritores, cineastas, fotógrafos, produtores audiovisuais, grafiteiros, dançarinos, coletivos de hip-hop, slammers, comunicadores populares e criadores de conteúdo capazes de movimentar milhares de pessoas diariamente. Entretanto, a maior parte desses agentes culturais permanece distante das estruturas responsáveis pela inovação tecnológica.
Poucos possuem acesso permanente a laboratórios de inteligência artificial, ambientes de desenvolvimento de softwares, incubadoras criativas, programas públicos de internacionalização, plataformas de comercialização digital ou formação especializada em propriedade intelectual. A literatura internacional aponta que a economia criativa do século XXI não depende apenas da existência de artistas, mas da capacidade de integrar esses profissionais aos ecossistemas digitais que produzem inovação contínua. Entre as macrotendências identificadas pelo estudo estão inteligência artificial, tecnologias imersivas, blockchain, Web 3.0, economia colaborativa e novos modelos digitais de produção cultural. A pergunta que permanece sem resposta é simples: onde estão essas políticas públicas voltadas aos artistas periféricos do Estado de São Paulo?
Existe uma diferença profunda entre financiar cultura e desenvolver uma economia cultural inovadora. Financiar um evento significa garantir sua realização. Desenvolver uma economia criativa significa construir condições para que artistas produzam riqueza de forma permanente, ampliem mercados, protejam sua propriedade intelectual e ocupem espaços estratégicos na transformação tecnológica mundial. Essa diferença parece não ter sido plenamente incorporada pelas políticas culturais paulistas.
Enquanto boa parte dos editais continua organizada para custear apresentações, oficinas e eventos temporários, o restante do mundo discute inteligência artificial aplicada à criação artística, metaverso, blockchain para gestão de direitos autorais, produção colaborativa em plataformas digitais, softwares culturais e ecossistemas permanentes de inovação. O estudo internacional identifica, inclusive, que startups criativas, desenvolvimento de software, ambientes colaborativos e hubs de inovação passaram a ocupar posição central na nova economia cultural, reduzindo barreiras de entrada para empreendedores criativos e criando novas formas de geração de renda. Permanecer distante desse movimento significa condenar milhares de artistas independentes a disputar continuamente recursos públicos para sobreviver, quando poderiam disputar mercados nacionais e internacionais por meio da tecnologia.
Talvez o maior erro das políticas culturais contemporâneas seja acreditar que cultura continua sendo apenas entretenimento. Ela deixou de ocupar exclusivamente os palcos para disputar espaço nos centros de pesquisa, nas empresas de tecnologia, nas universidades, nas plataformas digitais e nos mercados globais. Hoje, um artista pode criar um aplicativo educativo, desenvolver uma inteligência artificial para preservação da memória, produzir experiências em realidade aumentada, comercializar ativos digitais, licenciar conteúdos para plataformas internacionais e transformar conhecimento em propriedade intelectual. O problema é que essas oportunidades permanecem concentradas em quem já possui acesso à infraestrutura tecnológica e às redes de inovação. Enquanto isso, milhares de artistas periféricos continuam limitados a editais pontuais, oficinas temporárias e apresentações financiadas pelo poder público.
São Paulo precisa decidir se continuará financiando apenas eventos ou se passará a investir na formação de empreendedores culturais capazes de competir na economia do conhecimento. O verdadeiro desenvolvimento cultural não será medido apenas pela quantidade de projetos aprovados, mas pela capacidade de fazer com que artistas deixem de depender permanentemente do Estado para construir autonomia econômica baseada em inovação.
Os dados apresentados pela literatura internacional mostram que inovação deixou de ser uma possibilidade e passou a representar condição para a sobrevivência das indústrias criativas. Países que compreenderam essa transformação estruturaram políticas permanentes de integração entre cultura, ciência, universidades, centros tecnológicos e setor produtivo. Em São Paulo, entretanto, essa articulação ainda ocorre de forma fragmentada. A ausência de laboratórios públicos voltados à inovação cultural, de programas estaduais específicos para inteligência artificial aplicada às artes, de incubadoras permanentes para coletivos periféricos e de estratégias consistentes de internacionalização demonstra que existe uma lacuna entre o discurso sobre economia criativa e sua implementação prática.
Continuar tratando artistas apenas como executores de projetos financiados significa desperdiçar um dos maiores patrimônios econômicos do estado: sua capacidade de produzir conhecimento, identidade, inovação e desenvolvimento social. A periferia não precisa apenas de financiamento; precisa de infraestrutura tecnológica capaz de transformar criatividade em riqueza, emprego qualificado e protagonismo internacional.
A questão central deste debate não é cultural. É econômica, tecnológica e política. O Estado mais rico do Brasil continua formando artistas extremamente criativos, mas estruturalmente excluídos dos ambientes onde hoje se produz inovação. Enquanto o restante do mundo transforma cultura em tecnologia, propriedade intelectual, exportação de serviços e desenvolvimento econômico, São Paulo ainda celebra a inauguração de editais que garantem apenas a continuidade da sobrevivência de seus criadores. Essa lógica precisa ser rompida. A cultura periférica não necessita de políticas assistencialistas permanentes; necessita de acesso à inteligência artificial, aos laboratórios de inovação, à pesquisa aplicada, ao empreendedorismo criativo, às universidades, às plataformas digitais e aos mercados globais.
O desafio do século XXI não será descobrir onde estão os artistas. Eles sempre estiveram nas periferias. A verdadeira pergunta é outra: por que São Paulo continua investindo para que eles sobrevivam, quando poderia investir para que liderem a próxima revolução tecnológica da economia criativa? Essa talvez seja uma das decisões políticas mais importantes para o futuro cultural, econômico e social do estado.




















































