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Quando a escola fecha, os aliciadores entram em cena: as férias expõem crianças a uma nova violência invisível

Quando a escola fecha, os aliciadores entram em cena: as férias expõem crianças a uma nova violência invisível

Mudança no comportamento de grupos criminosos revela como o ambiente digital passou a ocupar o lugar das ruas na disputa pela infância. Especialistas alertam que ausência de supervisão, desigualdade social e excesso de tempo conectado ampliam o risco de aliciamento de crianças e adolescentes durante o recesso escolar.

Por Leonardo Mascarenhas
Editorial São Paulo

Durante décadas, o principal medo das famílias brasileiras nas férias escolares estava do lado de fora de casa. O receio era que crianças e adolescentes fossem vítimas da violência urbana, do tráfico de drogas ou da criminalidade presente nas ruas. Em 2026, parte dessa preocupação mudou de endereço. Os riscos continuam existindo, mas agora atravessam a porta de casa por meio da internet. O quarto, que antes simbolizava proteção, tornou-se também um ambiente onde grupos criminosos conseguem estabelecer contato direto com menores de idade, muitas vezes sem que pais ou responsáveis percebam. O desafio deixou de ser apenas controlar os espaços físicos e passou a exigir atenção permanente ao ambiente digital.

Quando a escola fecha, os aliciadores entram em cena: as férias expõem crianças a uma nova violência invisível

Segundo informações divulgadas pela chefe do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad), da Polícia Civil de São Paulo, houve uma mudança significativa no comportamento desses grupos durante o período de férias escolares. Atividades que antes ocorriam predominantemente durante a madrugada passaram a ser registradas também ao longo do dia, aproveitando o fato de que muitas crianças permanecem em casa enquanto pais trabalham e responsáveis alternativos nem sempre acompanham a rotina digital. A alteração demonstra que organizações criminosas observam padrões sociais e adaptam suas estratégias conforme a vulnerabilidade das vítimas. A tecnologia, nesse contexto, deixou de ser apenas ferramenta de comunicação para se transformar também em instrumento de aliciamento.

Entre 15 de junho e 15 de julho, período que coincide com parte do calendário de férias escolares, o Noad registrou entre nove e onze ocorrências diárias relacionadas a grupos que incentivam automutilação, suicídio e outras formas de violência contra crianças e adolescentes em plataformas digitais. Desde sua criação, em novembro de 2024, o núcleo reuniu informações sobre mais de 1.900 alvos, resultando na prisão ou apreensão de mais de 600 investigados e evitando que 406 crianças e adolescentes fossem vítimas desses grupos, segundo dados da própria Polícia Civil de São Paulo. Os números revelam que não se trata de casos isolados, mas de um fenômeno estruturado que exige resposta permanente do Estado.

As redes utilizadas por esses grupos funcionam com lógica semelhante à das plataformas digitais comerciais: quanto maior a audiência, maior o interesse dos participantes. Investigações identificaram transmissões acompanhadas por centenas de pessoas, algumas reunindo até 800 espectadores, segundo a Polícia Civil. A busca por visualizações transforma o sofrimento humano em espetáculo e demonstra como ambientes virtuais podem reproduzir mecanismos de recompensa semelhantes aos encontrados em redes sociais convencionais. Nesse cenário, crianças deixam de ser apenas usuárias da internet para se tornarem alvo de organizações que utilizam manipulação psicológica, chantagem emocional e pressão coletiva como formas de controle.

O problema também evidencia um desafio estrutural enfrentado por milhares de famílias brasileiras. Em um contexto marcado por jornadas extensas de trabalho, ausência de políticas públicas voltadas ao cuidado infantil durante o período de férias e dificuldades econômicas, muitos responsáveis não conseguem acompanhar integralmente a vida digital dos filhos. Nas periferias, onde frequentemente há menor acesso a espaços públicos seguros, atividades culturais permanentes e programas gratuitos de lazer, o celular acaba ocupando o papel de principal forma de entretenimento. A tecnologia, por si só, não representa o problema. O risco surge quando ela se torna praticamente o único ambiente de convivência disponível para crianças e adolescentes.

Especialistas em segurança digital defendem que a prevenção passa menos pela proibição absoluta e mais pela construção de vínculos familiares capazes de tornar o ambiente virtual objeto de diálogo cotidiano. Conhecer os jogos utilizados pelos filhos, compreender as plataformas que frequentam, conversar sobre amizades virtuais e estabelecer limites para o tempo de exposição às telas são medidas apontadas como estratégias importantes para reduzir vulnerabilidades. Ferramentas de controle parental também auxiliam, mas não substituem a presença ativa de adultos na educação digital das crianças. A tecnologia evolui rapidamente; o acompanhamento familiar precisa evoluir no mesmo ritmo.

A discussão sobre segurança digital infantil já não pode ser tratada apenas como responsabilidade das famílias. Ela envolve escolas, plataformas tecnológicas, empresas de redes sociais, órgãos de segurança pública e políticas governamentais voltadas à proteção da infância. As férias escolares revelam um problema que permanece durante todo o ano, mas que se torna mais visível quando o tempo livre aumenta e a supervisão diminui. Se o século XX exigiu políticas para proteger crianças das ruas, o século XXI impõe um novo desafio: garantir que elas também estejam protegidas dentro do ambiente virtual. A infância brasileira já não enfrenta apenas perigos físicos; ela precisa ser defendida também nos territórios digitais.


Fontes

  • Polícia Civil do Estado de São Paulo – Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad).
  • Folha de S.Paulo. Férias elevam risco de aliciamento de crianças e adolescentes na internet, alerta polícia de SP. Publicado em 20 de julho de 2026.
  • SaferNet Brasil – materiais sobre segurança digital e proteção de crianças e adolescentes na internet.
  • UNICEF Brasil – direitos digitais e proteção da infância no ambiente virtual.

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