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O orgulho não cura a dor: por que o bem-estar ainda é privilégio para pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil?

O orgulho não cura a dor: por que o bem-estar ainda é privilégio para pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil?

No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, é preciso perguntar quem tem acesso ao cuidado integral, às terapias, ao descanso e às práticas de saúde que ajudam a impedir que a vida vire apenas sobrevivência.

Por Leonardo Mascarenhas | Coluna Politica São Paulo

Todo ano, no dia 28 de junho, o Brasil se veste de arco-íris. As marcas mudam seus logotipos, as instituições publicam notas de apoio, os perfis oficiais falam em diversidade e as ruas lembram que existir, para pessoas LGBTQIAPN+, ainda é um ato político. Mas há uma pergunta que quase nunca aparece nesse dia: depois da celebração, quem cuida da dor que sobra?

A população LGBTQIAPN+ aprendeu a falar de violência, preconceito, morte, rejeição familiar, desemprego, solidão e exclusão. Aprendeu também a transformar ferida em bandeira. Mas talvez tenha chegado a hora de ampliar a conversa: quem tem acesso ao cuidado antes do adoecimento? Quem pode fazer terapia? Quem consegue praticar yoga? Quem paga acupuntura? Quem frequenta pilates, meditação, massoterapia, arteterapia ou outras práticas integrativas sem que isso pese no bolso?

O orgulho não cura a dor: por que o bem-estar ainda é privilégio para pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil?

No Brasil, o debate sobre saúde LGBTQIAPN+ ainda costuma ser reduzido a poucas portas: HIV, ISTs, hormonização, cirurgia de afirmação de gênero, saúde mental em situação de crise e atendimento emergencial depois da violência. Tudo isso é fundamental, mas não basta. A saúde de uma pessoa não começa quando ela sangra. Também não começa quando ela entra em colapso. Saúde começa antes, no direito de viver sem medo, de dormir bem, de ser acolhida, de ter tempo, de respirar, de conhecer o próprio corpo e de não precisar estar sempre em estado de defesa.

O Sistema Único de Saúde reconhece as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, conhecidas como PICS, como abordagens que podem complementar o cuidado convencional. Entre elas estão acupuntura, yoga, meditação, auriculoterapia, fitoterapia, reiki, terapia comunitária, arteterapia, musicoterapia e outras práticas voltadas à promoção da saúde, prevenção de agravos e cuidado integral. O problema é que o direito existe no papel, mas o acesso não chega da mesma forma para todas as pessoas.

A desigualdade brasileira não aparece apenas na fila do hospital. Ela também aparece na porta do estúdio de yoga, da clínica de acupuntura, do consultório de terapia, do espaço de meditação e dos lugares onde o descanso virou produto. Para parte da classe média, autocuidado é agenda semanal. Para muita gente LGBTQIAPN+ da periferia, autocuidado é conseguir sobreviver ao transporte lotado, ao trabalho precarizado, à violência da rua, ao medo dentro de casa e à falta de dinheiro no fim do mês.

É preciso dizer com todas as letras: bem-estar virou mercado. E quando o bem-estar vira mercado, quem mais precisa dele é justamente quem menos consegue acessar. A pessoa LGBTQIAPN+ pobre, negra, trans, periférica ou migrante não sofre apenas com a LGBTfobia direta. Sofre com a soma de ausências. Falta renda. Falta acolhimento. Falta tempo. Falta escuta. Falta equipamento público. Falta profissional preparado. Falta uma cidade que entenda que saúde também é pertencimento.

Durante muito tempo, ensinaram pessoas LGBTQIAPN+ a resistir. Resistir ao xingamento. Resistir ao desemprego. Resistir à expulsão de casa. Resistir à violência religiosa. Resistir à escola que humilha. Resistir ao atendimento de saúde que constrange. Resistir ao policial que suspeita. Resistir ao olhar que julga. Resistir à própria família. Mas ninguém deveria passar a vida inteira apenas resistindo. Viver não pode ser sinônimo de aguentar.

Quando falamos de yoga, acupuntura, meditação e terapias integrativas, muita gente ainda trata o tema como luxo, moda ou coisa distante da realidade popular. Mas essa visão precisa ser questionada. O corpo periférico também sente dor. O corpo LGBTQIAPN+ também acumula tensão. A travesti que atravessa a cidade todos os dias também precisa relaxar a musculatura. O jovem gay expulso de casa também precisa de escuta. A lésbica negra que sustenta uma família também precisa de cuidado emocional. A pessoa não binária que enfrenta violência simbólica todos os dias também precisa de um espaço onde seu corpo não seja tratado como problema.

O cuidado integral não substitui médico, psicólogo, remédio, hospital ou política pública estruturante. Não é disso que se trata. O ponto é outro: por que algumas práticas de promoção da saúde são vistas como direito quando chegam às classes altas, mas como enfeite quando são reivindicadas pela periferia? Por que um executivo pode fazer mindfulness para lidar com o estresse, mas um jovem periférico LGBTQIAPN+ precisa provar que está quase desmoronando para merecer atendimento?

A saúde pública brasileira tem uma das ideias mais bonitas do mundo: universalidade, integralidade e equidade. Universalidade significa que todas as pessoas têm direito. Integralidade significa que o cuidado deve olhar a pessoa inteira, e não apenas um pedaço doente do corpo. Equidade significa reconhecer que grupos diferentes precisam de respostas diferentes, porque não partem do mesmo lugar. Se levarmos esses princípios a sério, a população LGBTQIAPN+ não pode ser lembrada apenas em campanhas de prevenção ou em datas comemorativas.

A Política Nacional de Saúde Integral LGBT, instituída no âmbito do SUS, nasceu justamente para enfrentar desigualdades, discriminação e preconceito institucional. Ela reconhece que a população LGBT tem demandas específicas e que o serviço público precisa se preparar para acolher essas pessoas com dignidade. Mas, passados tantos anos, ainda existe uma distância enorme entre a política escrita e a experiência concreta de quem chega numa unidade de saúde com medo de ser maltratado.

O preconceito institucional não aparece apenas quando alguém xinga. Às vezes ele aparece quando o nome social não é respeitado. Quando a profissional de saúde ri. Quando a pergunta vem carregada de julgamento. Quando a pessoa trans evita buscar atendimento porque já sabe que será constrangida. Quando a mulher lésbica é tratada como se não tivesse vida sexual. Quando a pessoa bissexual é deslegitimada. Quando a identidade não binária é apagada. Quando o serviço existe, mas não acolhe.

Agora imagine esse mesmo corpo tentando acessar uma prática de bem-estar. Onde está a aula pública de yoga pensada para jovens LGBTQIAPN+ da quebrada? Onde está a terapia comunitária com recorte de diversidade? Onde estão os espaços de meditação em centros culturais periféricos? Onde estão as práticas de cuidado corporal para pessoas trans, travestis e não binárias que carregam anos de violência no corpo? Onde está a acupuntura acessível para quem vive com dor crônica e não pode pagar uma sessão particular?

A pergunta não é se yoga ou acupuntura resolvem sozinhas as violências estruturais. Não resolvem. Nenhuma prática individual cura o racismo, a LGBTfobia, a pobreza ou a precarização do trabalho. Mas práticas de cuidado podem ajudar pessoas a não adoecerem sozinhas enquanto lutam por mudanças maiores. O erro está em oferecer cuidado apenas como consumo e não como política pública.

A periferia conhece terapias antes mesmo de chamarem isso de terapia. Conhece roda de conversa, benzimento, terreiro, dança, capoeira, tambor, mutirão, caminhada, conselho de mais velhos, quintal, reza, horta, conversa de portão e abraço coletivo. A diferença é que, quando essas práticas nascem no povo, muitas vezes são tratadas como improviso. Quando são apropriadas pelo mercado, ganham nome bonito, sala climatizada, mensalidade alta e certificado na parede.

É aqui que a discussão precisa ficar mais séria. O Brasil precisa parar de tratar saberes populares como folclore e saberes elitizados como ciência do bem-estar. Muitas práticas integrativas dialogam com tradições ancestrais, indígenas, africanas, orientais e comunitárias. Quando chegam aos bairros ricos, viram estilo de vida. Quando permanecem nas periferias, muitas vezes são perseguidas, ridicularizadas ou ignoradas pelo poder público.

No caso da população LGBTQIAPN+, esse apagamento é ainda mais cruel. Muitos corpos dissidentes foram historicamente expulsos dos espaços de cuidado. Expulsos de casa, expulsos da igreja, expulsos da escola, expulsos do emprego formal, expulsos do afeto seguro. Depois, quando adoecem, são acusados de fragilidade. Mas quem consegue permanecer inteiro quando passa a vida sendo quebrado por pequenas violências diárias?

É por isso que o debate sobre saúde LGBTQIAPN+ precisa incluir descanso. Descanso é político. Sono é político. Silêncio é político. Terapia é política. Acesso à cidade é política. Ter um lugar onde o corpo possa existir sem ser ameaçado é política. O direito de respirar sem medo é tão importante quanto o direito de denunciar depois da violência.

A juventude LGBTQIAPN+ periférica, especialmente, vive uma contradição profunda. É chamada para performar coragem nas redes, militar em todos os debates, produzir conteúdo, se posicionar, sobreviver, estudar, trabalhar, ajudar em casa e ainda manter autoestima. Mas quem cuida dessa juventude quando a câmera desliga? Quem acolhe o menino gay que não pode falar em casa? Quem escuta a menina trans que tem medo de pegar ônibus? Quem fortalece a pessoa não binária que não se vê em nenhum serviço público?

Uma política séria de saúde e diversidade deveria articular unidades básicas de saúde, CAPS, escolas, centros culturais, coletivos LGBTQIAPN+, universidades, equipamentos de esporte, assistência social e iniciativas comunitárias. Não basta criar campanha bonita. É preciso criar acesso real. Aulas gratuitas. Profissionais capacitados. Grupos de cuidado. Terapia comunitária. Práticas corporais. Atendimento sem humilhação. Divulgação clara. Horários possíveis para quem trabalha. Espaços seguros para quem tem medo.

Também é preciso pesquisar mais. O Brasil ainda produz poucos dados amplos sobre o acesso da população LGBTQIAPN+ às práticas integrativas, ao bem-estar e às terapias não convencionais. Sem dados, a política pública fica cega. Sem escuta, a gestão pública fica arrogante. Sem orçamento, o direito vira discurso. E sem presença nos territórios, qualquer programa nasce bonito no papel e morre antes de chegar em quem precisa.

No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quantas bandeiras foram levantadas, mas quantas pessoas estão conseguindo viver melhor. Quantas pessoas LGBTQIAPN+ conseguem atendimento psicológico sem esperar meses? Quantas conseguem fazer acupuntura pelo SUS? Quantas conhecem as práticas integrativas disponíveis no seu município? Quantas têm acesso a espaços de cuidado onde não precisam explicar ou defender sua própria existência?

A resposta provavelmente revela uma desigualdade profunda. O Brasil celebra o orgulho, mas ainda distribui muito mal o cuidado. O Brasil reconhece direitos, mas ainda permite que o acesso seja filtrado por dinheiro, cor, território, identidade de gênero, orientação sexual e classe social. O Brasil fala em diversidade, mas ainda não entendeu que diversidade sem cuidado vira vitrine.

Pessoas LGBTQIAPN+ não precisam apenas de tolerância. Precisam de saúde integral. Precisam de políticas públicas. Precisam de proteção. Precisam de trabalho digno. Precisam de moradia. Precisam de afeto. Precisam de escuta. Precisam de espaços onde seus corpos não sejam vistos como ameaça, desvio ou espetáculo. Precisam, sobretudo, do direito de não viver em guerra todos os dias.

O orgulho é necessário. A festa é necessária. A memória de Stonewall é necessária. A Parada é necessária. Mas orgulho nenhum substitui política pública. Arco-íris nenhum substitui atendimento digno. Discurso nenhum substitui orçamento. Postagem nenhuma substitui acesso.

No fim, a pergunta que fica é simples e dura: quem tem direito ao bem-estar no Brasil? Se a resposta continuar sendo apenas quem pode pagar, então ainda estamos muito longe de uma sociedade verdadeiramente democrática.

Porque o corpo LGBTQIAPN+ não quer apenas sobreviver à violência. Ele quer dançar, descansar, respirar, envelhecer, amar, estudar, trabalhar, criar, adoecer menos e viver mais.

E isso também é saúde pública.

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