Comunicador comunitário há mais de 16 anos, jornalista, pesquisador e produtor cultural construiu sua trajetória entre feiras populares, projetos sociais, salas de aula e territórios periféricos, tornando a própria história uma ferramenta de defesa do direito à comunicação, à educação e à dignidade.
Por Redação
Antes dos diplomas, das publicações acadêmicas e dos projetos reconhecidos, havia um menino empurrando um carrinho de metal carregado de galinhas pelas ruas de Teresina, no Piauí. Leonardo Mascarenhas tinha entre oito e dez anos quando começou a acompanhar o pai, o irmão e outros familiares nas vendas realizadas durante as primeiras horas da manhã. O trabalho começava ainda de madrugada e fazia parte da estratégia de sobrevivência de uma família marcada por limitações financeiras e pela necessidade de complementar a renda.

O menino que aprendeu cedo a calcular o preço das aves, observar o movimento da feira e negociar com os clientes cresceu compreendendo que a pobreza não é apenas falta de dinheiro. Ela também significa ausência de oportunidades, restrição de escolhas e obrigação de amadurecer antes do tempo. Décadas depois, essa experiência deixaria de ser apenas uma lembrança pessoal para se tornar parte de sua produção intelectual e de sua atuação como comunicador.

Hoje, Leonardo é mestre em Administração e Controladoria pela Universidade Federal do Ceará, com pesquisa voltada à gestão cultural em territórios periféricos. A passagem entre esses dois mundos — da venda de galinhas à pós-graduação — não deve ser apresentada como uma narrativa simplista de superação individual. Sua trajetória expõe as barreiras enfrentadas por quem nasce longe dos centros de poder e precisa construir, quase sempre sem rede de proteção, os caminhos para permanecer estudando, trabalhando e produzindo conhecimento.

A formação acadêmica, no entanto, não apagou o vínculo com os territórios populares. Ao longo de mais de 16 anos de comunicação comunitária, Leonardo participou da criação de portais, coletivos, projetos culturais e iniciativas de formação voltadas às periferias. Seu trabalho surgiu da percepção de que bairros populares apareciam nos grandes veículos quase exclusivamente associados à violência, à precariedade ou à tragédia, enquanto suas experiências de organização, cultura, ciência e inovação permaneciam invisíveis.
Foi nesse contexto que passou a utilizar o jornalismo como instrumento de registro e mobilização. Em vez de esperar que os grandes meios de comunicação chegassem às comunidades, ajudou a construir canais próprios, capazes de denunciar violações, divulgar oportunidades, acompanhar políticas públicas e contar histórias que dificilmente encontrariam espaço na imprensa tradicional. Sua atuação aproximou comunicação, educação social, pesquisa e participação comunitária.
A importância desse percurso está justamente na recusa de abandonar a própria origem para ser reconhecido. Leonardo não chegou à universidade para se distanciar da periferia, mas para ampliar as ferramentas utilizadas na defesa desses territórios. A controladoria, frequentemente associada apenas ao universo empresarial, passou a dialogar em seus estudos com gestão cultural, políticas públicas, prestação de contas, sustentabilidade de projetos e fortalecimento de organizações comunitárias.
Essa combinação entre conhecimento acadêmico e experiência de campo desafia uma lógica histórica do Brasil. Durante muito tempo, pessoas periféricas foram tratadas apenas como objetos de pesquisa, personagens de reportagens ou beneficiárias de programas públicos. Na trajetória de Leonardo, a periferia passa a ocupar o lugar de quem pesquisa, interpreta, propõe soluções e produz conhecimento sobre a própria realidade.
Sua história também revela como a comunicação comunitária exige uma forma particular de trabalho. Não se trata apenas de publicar notícias. É preciso ouvir moradores, verificar denúncias, circular por territórios, enfrentar falta de recursos, manter canais ativos e disputar a atenção com veículos dotados de estruturas muito maiores. Muitas vezes, o comunicador comunitário acumula as funções de repórter, fotógrafo, editor, produtor, gestor e articulador social.
Ao longo desse processo, Leonardo transformou vivências pessoais em perguntas públicas. A fome experimentada na infância tornou-se objeto de reflexão sobre pobreza e desigualdade. A dificuldade de acesso à cultura converteu-se em projetos de gestão e formação cultural. A invisibilidade dos bairros populares motivou a criação de veículos e espaços de comunicação. A educação, por sua vez, tornou-se uma possibilidade concreta de reorganizar a própria trajetória sem apagar as marcas do caminho percorrido.
O título de mestre, nesse sentido, não representa apenas uma conquista individual. Ele simboliza a entrada de outras experiências sociais em espaços que durante séculos foram reservados a poucos. Quando um antigo vendedor de galinhas passa a produzir pesquisa científica, publicar livros, formar pessoas e interpretar políticas públicas, a universidade também é obrigada a reconhecer que o conhecimento não nasce exclusivamente dentro de seus muros.
A trajetória de Leonardo Mascarenhas é relevante porque não termina no diploma. Ela continua nos portais comunitários, nas reportagens sobre as periferias, nos projetos sociais, nas salas de aula, nos livros e nas ações culturais. Sua experiência demonstra que a ascensão educacional pode produzir mais do que mobilidade individual: pode devolver ao território conhecimento, visibilidade e capacidade de reivindicação.
Em um país no qual milhões de crianças ainda trabalham cedo, abandonam os estudos ou atravessam a juventude sem acesso a oportunidades, histórias como essa não devem servir para romantizar a dificuldade. Nenhuma criança deveria precisar enfrentar jornadas de trabalho para garantir a sobrevivência da família. O que essa trajetória evidencia é a potência que permanece desperdiçada quando o Estado, a escola, a cultura e a sociedade não alcançam aqueles que mais necessitam de apoio.
Do carrinho carregado de galinhas ao mestrado, existe uma distância que não pode ser medida apenas em quilômetros, anos ou diplomas. Ela é formada por perdas, trabalho, estudo, resistência e compromisso comunitário. Leonardo chegou a espaços que pareciam improváveis, mas não chegou sozinho: levou consigo as histórias de sua família, de sua comunidade e de milhares de pessoas que continuam tentando transformar sobrevivência em futuro.
Mais do que uma história de superação, sua trajetória é uma denúncia e uma possibilidade. Denúncia de um país que ainda obriga crianças pobres a amadurecer cedo demais. Possibilidade de uma sociedade em que aqueles que vieram das periferias não sejam apenas ouvidos como testemunhas da desigualdade, mas reconhecidos como jornalistas, pesquisadores, gestores, escritores e produtores de novos caminhos para o Brasil.




















































