SOB A MIRA DA PF E DA CIVIL: NUNES BLINDA CONTRATO MILIONÁRIO DE WI-FI LIGADO A FILME BOLSONARISTA E TENTA MINIMIZAR ESCÂNDALO
setembro 10, 2026
Prefeito de São Paulo nega irregularidades em repasses de R$ 114 milhões ao Instituto Conhecer Brasil e rejeita elo com produtora investigada, enquanto apurações revelam suspeita de superfaturamento de quase 500%, metas fantasmas e desvio de verba pública.
“Essa questão do filme e do Instituto não tem relação nenhuma com o contrato que a Prefeitura tem de Wi-Fi. […] O nosso não tem nenhuma irregularidade. Estamos pagando por um serviço que está sendo prestado.” — Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, em declaração à imprensa nesta quinta-feira (10/09).
Pressionado pela deflagração de uma ofensiva coordenada pela Polícia Federal e com inquérito em curso na Polícia Civil paulista, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) veio a público nesta quinta-feira (10/09) para defender enfaticamente a lisura de um dos acordos mais controversos de sua gestão. Trata-se do termo de colaboração firmado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização não governamental contratada para expandir o sinal de internet gratuita em comunidades periféricas da capital. O caso atingiu o ápice da tensão política e jurídica após a PF mirar Karina Ferreira da Gama — dona da produtora GoUp Entertainment e responsável pela produção cinematográfica bolsonarista Dark Horse —, sob forte suspeita de que verbas públicas destinadas à conectividade popular tenham sido canalizadas para irrigar o projeto audiovisual. Em resposta direta às investidas policiais chanceladas pelo Supremo Tribunal Federal, o chefe do Executivo paulistano sustentou que o pacto é auditado rigorosamente e tentou desvincular a imagem do Palácio das Indústrias da apuração criminal.
Para rebater o avanço das apurações que colocam o gabinete municipal no centro das atenções nacionais, o emedebista adotou uma postura de enfrentamento político e buscou desviar o foco para gestões passadas. Nunes alegou expressamente que o contrato em vigor “não tem nenhuma irregularidade” e citou o acompanhamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE), aproveitando a presença dos jornalistas para disparar críticas contra o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), insinuando que irregularidades verdadeiras existiram em certames da gestão petista. Apesar de assegurar que a prefeitura agirá com energia caso inconsistências sejam judicialmente provadas, Nunes frisou que o município não aceitará um “pré-julgamento” e reiterou que todo repasse corresponde a serviços efetivamente prestados. A justificativa, no entanto, colide de frente com as constatações técnicas reunidas pelos investigadores da Polícia Civil e da PF, que apontam fragilidades estruturais e vícios insanáveis desde o nascimento do chamamento público que consagrou o ICB.
Os relatórios policiais que embasam as diligências revelam um mosaico de anomalias operacionais e financeiras que desmontam a tese de normalidade administrativa. O primeiro sinal de alerta emergiu da própria inaptidão técnica da entidade beneficiada: o chamamento público promovido pela prefeitura contou com a participação isolada do Instituto Conhecer Brasil, uma instituição que não possuía nenhum histórico de atuação técnica no complexo mercado de infraestrutura de telecomunicações. Até conquistar a rubrica milionária do município, o portfólio da ONG limitava-se à organização de feiras de livros e eventos voltados ao público religioso. A entrega de uma malha tecnológica de alta complexidade a uma organização sem capacidade técnica comprovada abriu margem para a suspeita de direcionamento e montagem de fachada para o fluxo de recursos públicos com pouca transparência.
O capítulo financeiro da investigação expõe discrepâncias estarrecedoras nos valores praticados pelo gabinete de Nunes em comparação com a tabela de órgãos estatais especializados. Conforme as investigações da Operação Wi-Fi Livre, enquanto a Prodam — empresa pública de tecnologia do município de São Paulo — precificava o custo de manutenção mensal por ponto em R$ 306, o termo acordado com o Instituto Conhecer Brasil fixou o pagamento de inacreditáveis R$ 1.800 mensais por unidade conectada. Esse salto representa um superfaturamento de quase 500% em relação aos parâmetros públicos de referência, gerando uma sangria artificial nos cofres da cidade. Como agravante, a apuração indica que a gestão municipal efetuou um adiantamento financeiro de R$ 26 milhões sem contraprestação imediata, liberando repasses correspondentes a 3.200 pontos quando, na prática, apenas seis antenas estavam plenamente operacionais durante o período inicial de verificação.
A discrepância entre o que foi faturado e o que foi de fato entregue às comunidades periféricas reforça a gravidade das sanções que pairam sobre o contrato. Do total de 5.000 pontos de acesso previstos no cronograma oficial para encurtar o fosso digital nos bairros periféricos, apenas 3.200 foram nominalmente instalados pela entidade parceira. Para contornar e mascarar os atrasos flagrantes no cronograma executivo e evitar sanções administrativas, a prefeitura e a entidade celebraram sucessivos termos aditivos em intervalos de poucos dias. Ao todo, a gestão Nunes já admitiu o dispêndio de expressivos R$ 114 milhões no âmbito da parceria: uma fatia de R$ 68 milhões destinada à instalação e manutenção entre julho de 2024 e junho de 2025, complementada por mais R$ 45 milhões carimbados exclusivamente para serviços de suporte entre meados de 2025 e maio de 2026.
O alcance da apuração rompeu as fronteiras do inquérito policial estadual e ganhou tração no Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino determinou o compartilhamento integral das apurações preliminares conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo com a Polícia Federal, autorizando as diligências desta quinta-feira para rastrear se os pagamentos municipais feitos à ONG transitaram para contas de terceiros vinculadas à GoUp Entertainment. O objetivo central é mapear o fluxo financeiro exato que liga o programa de conectividade social da maior metrópole da América Latina ao custeio de campanhas ideológicas e produções audiovisuais do ecossistema bolsonarista. Diante dos mandados de busca e apreensão e das quebras de sigilo autorizadas pela Justiça, a prefeitura se vê encurralada entre manter o discurso de regularidade e gerenciar o impacto de ter um programa de inclusão digital periférica atrelado a suspeitas graves de desvio de dinheiro público.
O contraste gritante entre o superfaturamento de R$ 1.800 por ponto de internet e as periferias paulistanas ainda desprovidas de conectividade estável é o retrato acabado de uma política pública sequestrada por interesses escusos. A narrativa oficial de eficiência rui diante de centenas de milhões de reais transferidos a uma ONG sem experiência técnica, em meio a relatórios de auditoria que apontam antenas inexistentes e dinheiro adiantado sem fiscalização. Ao insistir na retórica de normalidade e blindar um contrato sob cerco conjunto da Polícia Civil, da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal, o prefeito Ricardo Nunes assume o risco de transformar o discurso de modernização digital da capital em um monumento incontestável à negligência fiscal e ao compadrio político.
Fonte das informações primárias:Prefeitura Municipal de São Paulo, inquéritos da Polícia Civil de SP e da Polícia Federal / Apuração original: Metrópoles.